sexta-feira, 9 de outubro de 2009

As ciêncas e a construção das teorias do conhecimento


O homem sempre buscou explicar o mundo. Dar-lhe um sentido e dar um sentido à sua própria existência. Para isto, tem recorrido ao auxílio do mito, da magia e da religião, e mais recentemente da ciência e da tecnologia.

Filmes como “Matrix” e outros mais, trazem questões que nos fazem refletir se o mundo em que vivemos realmente existe ou se tudo poderia ser apenas uma ilusão, como é formada nossa realidade, etc.

Como formular questões e até que ponto devemos ultrapassar as barreiras do senso comum em busca de respostas para estas questões metafísicas?

Diante de tais questionamentos, envolve-se a epistemologia que é a teoria do conhecimento e se interessa pela investigação da natureza, fontes e validades do conhecimento. Entre as questões que ela tenta responder estão as seguintes:

O que é o conhecimento? Como nós podemos alcançá-lo? Podemos conseguir meios para defendê-lo contra o desafio cético?

Será que o ser humano conseguirá algum dia atingir realmente o conhecimento total e genuíno, fazendo-nos oscilar entre uma resposta dogmática e empirista?

Há ainda outras questões relativas ao conhecimento como a apostasia da ciência de seu verdadeiro sentido e sua aproximação a outras formas de aprendizado com estruturas lógicas e irracionais: o Senso comum, o pensamento mítico, a filosofia, a religião e a ciência.

Todas essas formas de conhecimento estão presentes em nosso saber, mas há sempre a prevalência de um deles, pois o homem procura conhecer e explicar o mundo à sua volta.

Para Platão, as idéias ou arquétipos ideais representavam as idéias verdadeiras, da qual seriam as realidades sensíveis, meras cópias imperfeitas, sem validade de si mesmas, mas sim enquanto participam do ser essencial. O idealismo de platão reduz o real ao ideal, resolvendo o ser em idéia, pois como ele já dizia, “as idéias são o sol que ilumina e torna visíveis as coisas.”

Isso sugere que a verdade não pode ser alcançada através dos sentidos, através das representações ou alegorias. Para ele, esta só pode ser alcançada através da razão que apreende as coisas naquilo em que na realidade elas são.

Platão viu a maioria da humanidade condenada a uma infeliz condição. Imaginou (no Livro VII de A República, um diálogo escrito entre 380-370 a.C.) todos presos desde a infância no fundo de uma caverna, imobilizados, obrigados pelas correntes que os atavam a olharem sempre a parede em frente. O que veriam então? Supondo a seguir que existissem algumas pessoas, uns prisioneiros, carregando para lá para cá, sobre suas cabeças, estatuetas de homens, de animais, vasos, bacias e outros vasilhames, por detrás do muro onde os demais estavam encadeados, havendo ainda uma escassa iluminação vindo do fundo do subterrâneo, disse que os habitantes daquele triste lugar só poderiam enxergar o bruxuleio das sombras daqueles objetos, surgindo e se desfazendo diante deles. Era assim que viviam os homens, concluiu ele. Acreditavam que as imagens fantasmagóricas que apareciam aos seus olhos (que Platão chama de ídolos) eram verdadeiras, tomando o espectro pela realidade. A sua existência era pois inteiramente dominada pela ignorância (agnóia). Se por um acaso, segue Platão na sua narrativa, alguém resolvesse libertar um daqueles pobres diabos da sua pesarosa ignorância e o levasse ainda que arrastado para longe daquela caverna, o que poderia então suceder-lhe? Num primeiro momento, chegando do lado de fora, ele nada enxergaria, ofuscado pela extrema luminosidade do exuberante Hélio, o Sol, que tudo pode, que tudo provê e vê. Mas, depois, aclimatado, ele iria desvendando aos poucos, como se fosse alguém que lentamente recuperasse a visão, as manchas, as imagens, e, finalmente, uma infinidade outra de objetos maravilhosos que o cercavam. Assim, ainda estupefato, ele se depararia com a existência de um outro mundo, totalmente oposto ao do subterrâneo em que fôra criado. O universo da ciência (gnose) e o do conhecimento (espiteme), por inteiro, se escancarava perante ele, podendo então vislumbrar e embevecer-se com o mundo das formas perfeitas.

Contrapondo-se a Platão, Aristóteles que foi seu discípulo durante vinte anos, sugere que o dualismo platônico entre mundo sensível e mundo das idéias era um artifício dispensável para responder a pergunta sobre o conhecimento verdadeiro. Nossos pensamentos não surgem do contato de nossa alma com o mundo das idéias, mas sim, da experiência sensível. “Nada está no intelecto sem antes ter passado pelos sentidos”, dizia o filósofo.

Aristóteles desenvolveu ainda a sua “Teoria das quatro causas”, onde todas as substâncias apresentariam quatro causas: Uma Material, uma eficiente, uma formal e uma final. A material representa aquilo de que a coisa é feita. Na eficiente, está aquilo com que a coisa é feita. Na formal está aquilo que a coisa vai ser, e, por fim, na final, aquilo para o que a coisa é feita.

Dessas outras análises, Aristóteles fundamentará a sua física geral, entendida como a ciência que trata o movimento e que estaria estaria restrita aqui, na terra, onde portanto seria, o mundo da mudança.

Já em 1637, René Descartes publica o “Discurso do Método”, obra inaugural da filosofia moderna, escrita em língua vulgar, isto é, o Francês. Naquela época, as obras filosóficas eram escritas em latim e estavam voltadas para um público “douto”, constituído do círculo exclusivo de iniciados às questões propriamente filosóficas. Descartes, tinha porém, um outro propósito: o de alcançar um amplo público, ou seja, todas as pessoas dotadas de “bom senso” ou “razão”, de tal maneira que os assuntos humanos em geral estivessem ao alcance de cada um. Adepto do inatismo, que afirma que todos somos possuidores enquanto seres pensantes, de uma série de princípios evidentes, idéias natas que servem de fundamento lógico a todos os elementos com que nos enriquecem a percepção e a representação, ou seja, para ele, o racionalismo se preocupa com a idéia fundante que a razão por si mesma logra atingir.

Descartes, ao abrir as portas para o racionalismo, deu corpo à filosofia moderna, estabelecendo um novo processo de constituição do conhecimento.

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